
Os dados do mercado de trabalho no 1° trimestre, divulgados nesta quinta-feira (14) pelo IBGE, apontam um cenário aquecido, com redução no tempo de procura por vagas e aumento da renda de todas as fontes.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua indica que a massa de rendimento médio real habitualmente recebido em todos os trabalhos alcançou R$ 374,8 bilhões, mantendo estabilidade em relação ao trimestre anterior (R$ 372,5 bilhões) e registrando avanço na comparação anual.
Composição da renda familiar
O rendimento do trabalho representa a fonte mais importante de sustento no país, correspondendo, em média, a cerca de 75% da renda das famílias brasileiras.
Vitor Hugo Miro, pesquisador do FGV/Ibre, destaca que as aposentadorias e pensões representam a segunda principal fonte no cenário nacional, com 16,4% de participação, seguidas pelos programas sociais, com 3,5%.
Na região Nordeste, contudo, o peso do rendimento do trabalho cai para um patamar entre 67% e 68%, enquanto o percentual relacionado aos programas sociais atinge cerca de 9%, o que mostra uma dependência superior de transferências governamentais.
Menor tempo de procura por emprego
O dinamismo da ocupação é reforçado pela menor duração na busca por novas oportunidades. Os dados da PNAD apontam que no primeiro trimestre de 2026 houve queda de 14,7% no tempo de procura de menos de 1 mês, recuo de 9,9% para a procura de 1 mês a menos de 1 ano; queda de 9% na procura de 1 a 2 anos e queda de 21,7% na procura por dois anos ou mais.
| Tempo de procura de trabalho | ||
| 2025/2024 (%) | 2026/2025 (%) | |
| Menos de 1 mês | -6,5 | -14,7 |
| De 1 mês a menos de 1 ano | -3,6 | -9,9 |
| De 1 ano a menos de 2 anos | -16,6 | -9 |
| 2 anos ou mais | -25,5 | -21,7 |
Segundo o pesquisador da FGV, essa maior rapidez e facilidade na recolocação profissional decorre de transformações estruturais e de uma flexibilidade nas relações de trabalho. O economista aponta que indivíduos que perdem o vínculo CLT conseguem atuar de maneira autônoma, impulsionados pelo avanço das plataformas de entrega, um processo popularmente conhecido como “uberização”.
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Taxa natural de desemprego
A resiliência da ocupação e os patamares historicamente baixos de desemprego reacenderam o debate sobre o nível de pleno emprego na economia brasileira. Vitor Hugo Miro avalia que a nova taxa natural de desemprego do país deve se consolidar em torno de 5%. Esse patamar é expressivamente inferior à taxa de 8% estimada em anos anteriores pela literatura econômica e pelos modelos do Banco Central.
Miro explica que o Brasil pode estar vivendo um efeito atrasado das medidas de flexibilização introduzidas pela reforma trabalhista de 2017. A maturação dessas mudanças acabou postergada pelo desaquecimento econômico em 2018 e 2019 e, na sequência, pelo período da pandemia.
O fato de o desemprego ter recuado para níveis próximos a 5% sem gerar aceleração inflacionária no ano passado sinaliza que a política monetária com taxas de juros restritivas cumpriu seu papel de manter os preços sob controle.
Sazonalidade no primeiro trimestre
Os dados do primeiro trimestre mostram um ligeiro crescimento na taxa de desocupação geral, com alta registrada em 15 estados e estabilidade mantida em 12. O pesquisador da FGV esclarece que esse aumento reflete um movimento sazonal típico do início de ano, quando as empresas reajustam seus planos de trabalho e dispensam funcionários temporários contratados para as atividades de fim de ano.
Apesar desse repique sazonal, a taxa de desemprego do primeiro trimestre de 2026 manteve-se em um patamar inferior ao dos mesmos períodos de anos anteriores, confirmando que o mercado permanece aquecido. A estabilidade observada em 12 estados sugere que muitos trabalhadores conseguiram ser efetivados, evitando uma dispensa generalizada. Setorialmente, a agropecuária atingiu recorde de pessoas ocupadas nos últimos meses, surfando o bom desempenho do setor em 2025 apontado pelo Cepea, embora as perspectivas afetem a expectativa de repetição desse vigor em 2026.
Dinamismo e aumento da renda do trabalho
O dinamismo da ocupação foi o principal responsável pela recente expansão da renda familiar. Os dados consolidados de 2025 indicam que o rendimento do trabalho cresceu 5,7% no último ano. Em comparação com 2019, período anterior à pandemia, o avanço acumulado foi de 11,1%, evidenciando que o grande impacto positivo se concentrou no cenário recente de aquecimento do emprego, destaca Miro.
Por outro lado, os rendimentos provenientes de programas sociais seguem uma dinâmica de correção mais lenta, dependendo do orçamento do governo. O valor básico do Bolsa Família se mantém em R$ 600 desde 2023, sem reajustes automáticos que acompanhem a inflação.
Essa diferença no ritmo de crescimento das fontes financeiras provocou um aumento na desigualdade entre 2024 e 2025. Enquanto a renda dos 10% mais pobres subiu 3,1% no último ano, o rendimento dos 10% mais ricos cresceu 8,7% — mais do que o dobro.
Miro esclarece que a base da pirâmide possui forte dependência dos programas sociais, enquanto o topo da distribuição tem seus ganhos diretamente impulsionados pelo mercado de trabalho. Com a forte expansão da renda laboral, os estratos mais elevados acabaram concentrando o rendimento mais alto no último ano.
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