Como contar uma história sobre a identidade cultural e o jeito que só o brasileiro tem, para representar um carro desenvolvido no Brasil em um segmento genuinamente brasileiro? Futebol, samba, festas, praia, natureza e as cores da nossa bandeira são alguns dos elementos possíveis. Mas, e se tudo isso estivesse junto e em um formato nostálgico? Essa foi a proposta para a criação de uma camuflagem única para a Volkswagen Tukan, inédita picape intermediária da marca que estreia em 2027.
QUATRO RODAS conheceu de perto e com exclusividade a Tukan com o novo disfarce, que faz uma integração afiada entre as equipes de engenharia, design e comunicação da marca no Brasil. Para entender cada detalhe desse desenvolvimento, conversamos com José Carlos Pavone, chefe de design da Volkswagen América do Sul e América do Norte, e Diego Ruiz, designer sênior da marca, que teve grande envolvimento no desenho da picape e na camuflagem.
Antes da história, alguns fatos presentes sobre o modelo. Esta unidade da Tukan será a única com este disfarce e será utilizada pela engenharia da Volks para testes reais nas ruas e estradas brasileiras. Ou seja, ao avistá-la, saiba que se trata sempre do mesmo exemplar.
Mas seu uso irá além de fotos, vídeos e testes. Sua primeira aparição pública aconteceu no dia da convocação da Seleção Brasileira de Futebol por Carlo Ancelotti, treinador da Seleção, no Rio de Janeiro (RJ). Ancelotti chegará ao evento a bordo da Tukan. Isso porque a Volkswagen é a patrocinadora oficial da CBF e das Seleções Brasileiras. E, claro: isso também aparece na camuflagem feita por Diego Ruiz, JC Pavone e suas equipes.

Brasilidade em cada detalhe
A Tukan é um dos maiores pilares de um investimento de R$ 16 bilhões da Volkswagen no Brasil. Ela foi desenvolvida, desenhada e será produzida por aqui, para um segmento amadurecido no mercado brasileiro, o das picapes intermediárias. Por isso, ela busca honrar suas origens em um trabalho artístico feito em menos de duas semanas.
Para Pavone, as camuflagens viraram uma ferramenta de comunicação em um momento de pré-lançamento do carro, mas o padrão tradicional, preto e branco, já não inspira. Isso até os departamentos de design da VW se envolverem, como visto em modelos recentes da marca pelo mundo, os novos T-Roc, ID.Polo e ID.Cross.

Tratam-se de disfarces que precisam cumprir sua função, de disfarçar as linhas do carro durante os testes da engenharia, mas de uma forma artística. Essa arte, porém, também tem um compromisso: comunicar a proposta do modelo.
No caso da Tukan, a intenção foi apresentar sua brasilidade, conectando-a com a Seleção Brasileira em momento de Copa do Mundo. “Se a gente fosse o mais simplista possível, poderia ter colocado um monte de bola de futebol, mas é genérico”, disse Pavone. “A gente quis um pouquinho mais, ir mais fundo (…) então, o que dá pra contar, o que dá pra relacionar?”, completou.
A partir daí, as propostas iniciais envolveram fauna (com o tucano, que batiza a picape), flora (com folhagens e suas sombras), grafites e a camisa da Seleção, com o clássico amarelo canário – que será a cor de lançamento da Tukan.

Apareceram ainda, entre os estudos, os nostálgicos pisos de caquinhos de construções antigas, além de azulejos, de estilos clássicos e coloridos, como os da escadaria Selarón, no Rio de Janeiro. Os azulejos intrigaram Pavone, que comandou uma extensa pesquisa sobre os revestimentos, que têm muita ligação com o brasileiro. Seja em casa, na cozinha e em áreas de festas, ou em bares e restaurantes, os azulejos sempre aparecem, e de formas variadas.
Martelo batido: a VW Tukan seria disfarçada com desenhos que remetessem aos azulejos. A partir daí, a equipe de design desenvolveu as estampas, definindo também o estilo gráfico e as cores, com uso de azul, verde e amarelo, e traços minimalistas.

Pandeiro, pranchas de surf, mapa do Brasil, bandeira do Brasil, tucano, Cristo Redentor, bola de futebol, logo da Volkswagen, palmeira, coco, máscara de carnaval e uma arte com cinco estrelas (representação dos títulos da Seleção e de notas da VW em testes de colisão) estão presentes na viva camuflagem, além de outros elementos abstratos que ajudam a disfarçar as linhas do protótipo.
“Por ter trabalhado no exterior (da picape) foi até mais fácil, porque eu sei os pontos que mais chamam a atenção no carro e o que a gente quer disfarçar mais”, disse Diego, que completou apontando que há elementos de preenchimento por baixo da camuflagem em alguns pontos da carroceria da picape. Na dianteira, por exemplo, pouco se revela. Na traseira, é possível identificar grande parte das linhas – falaremos sobre isso em instantes.
A missão da camuflagem foi atingida, segundo os designers – e pudemos comprovar de perto. De fato, é possível identificar linhas principais, mas o chamativo e colorido desenho busca enganar e desviar os olhares de quem busca por mais detalhes. Isso sem falar nos preenchimentos citados por Diego, colocados mesmo em detalhes já revelados oficialmente, como na “quebra” feita no topo dos para-lamas.

Por baixo dos disfarces
A Tukan poderá ser revelada por completo até o final de 2026 mas, até lá, a marca pretende lançar diversos teasers antecipando detalhes. Já eram conhecidos, por exemplo, os apliques plásticos dos para-lamas e uma tarja plástica na coluna C com o nome Tukan. Agora, a marca revela um dos pontos altos do design da picape: a tampa traseira.
Pela primeira vez, uma picape feita na região ganha o nome estampado na tampa traseira – em baixo relevo, no caso da Tukan. Em outra ocasião, a Saveiro teve a tampa gravada, mas com o nome Volkswagen e em alto relevo. QUATRO RODAS pôde retirar a camuflagem da tampa, revelando o detalhe.

Pavone e Diego mostram empolgação com a criação, mas também apontam que não foi um processo fácil.
“Do começo do carro até o modelo final foram cerca de 10 tampas para tornar isso viável, porque quando você estampa, há uma distorção na superfície em redor das letras”, explica Diego. O processo exige precisão de tamanho, inclinação, raio e outros detalhes técnicos para que não haja distorção na estamparia. “Essa tampa foi difícil, mas chegamos a um compromisso muito bom”, completou.
Sobre o processo, Pavone apontou ainda para o desafio entre tornar possível fisicamente um projeto feito digitalmente. “No 3D fica lindo, mas tem um Grand Canyon até isso funcionar na produção (…) nada substitui um carro físico na sua frente”, finalizou.

Além da tampa, que leva o nome da picape logo abaixo do logo e tem um vinco inferior que dá volume, foi possível identificar outros detalhes da Tukan. As lanternas parecem ter “um quê” da Amarok europeia no formato, com leve arredondamento e pequenos prolongamentos nas extremidades inferior e superior, como uma letra “C”. Elas poderão ser interligadas por um friso preto, que não terá iluminação.

O para-choque traseiro é característico de uma picape, com extremidades pronunciadas e área central livre, mostrando também que a caçamba terá um bom vão de entrada. A tampa é tão grande, mostrando que a VW Tukan também terá aptidão para o trabalho, que o rebaixo da placa fica nela, e não no para-choque, como nas rivais Fiat Toro e Chevrolet Montana. No vidro traseiro, a Tukan “esconde” outra origem: um tucano gravado no vidro, como um dos easter-eggs prometidos pelos designers.

De lado, a Tukan repete alguns artifícios de design de outros “irmãos”, como a linha levemente ascendente das portas traseiras, como no T-Cross. Aparecem também vincos já vistos no Tera: arcos que nascem na dianteira e na traseira do modelo, e que terminam nas portas. Não é possível identificá-los nas fotos (a camuflagem fazendo seu papel!), mas são nítidos pessoalmente. Destaca-se também o santantônio integrado ao rack de teto.

Fica para a dianteira a maior incógnita da picape da Volkswagen. Enxerga-se apenas as grandes aberturas do para-choque e, levemente, o desenho final dos faróis, que remetem a Tera e Tiguan. Nada mais pode ser visto devido aos preenchimentos estrategicamente colocados. Porém, pode se esperar traços parecidos com os dos SUVs citados.
Cabine simples e híbrida leve
Detalhes técnicos ainda são desconhecidos, mas se sabe que a Tukan será produzida em São José dos Pinhais (PR), ao lado do T-Cross, sobre a plataforma modular MQB. O eixo traseiro será rígido com feixes de mola, mostrando que a picape terá aptidão também para trabalho, mesmo que isso sacrifique um pouco do conforto ao rodar vazio. É possível que sua capacidade de carga, por isso, passe dos 700 kg.

A oferta de motores poderá ser dividida em três para roubar clientes de Strada, Toro e Montana, e substituir a Saveiro. As configurações mais caras podem estrear o motor 1.5 eTSI Evo2 flex no Brasil, que estaria associado a um sistema híbrido leve de 48 V. Apesar de ter os mesmos 150 cv e 25,5 kgfm do atual 1.4 TSI, o conjunto promete redução de consumo de combustível e melhoria nas acelerações.
As versões intermediárias teriam o 1.0 turbo de 116 cv e 16,8 kgfm, sempre com câmbio automático de seis marchas. Por fim, versões de trabalho, para frotas, poderão ter o motor 1.6 aspirado com câmbio manual de cinco marchas, além de configurações de cabine simples.

































