Existe uma diferença entre assistir a um vídeo em um celular e sentir que você está dentro do ambiente do vídeo – graças a Realidade Estendida (XR). É possível uma experiência dentro da realidade virtual criar uma memória tão próxima da realidade que o cérebro não consiga distinguir o que é falso ou não? Esse foi o tema da palestra “Cognição Estendida com XR”, apresentada por Ian Reis, diretor imersivo e designer na AVA Creative, durante o São Paulo Innovation Week (SPIW).
Ian trabalha com Realidade Virtual há dez anos, começando no ramo após um acidente de moto: ele usou o dinheiro do seguro para comprar um equipamento de filmagem 360 e começou a estudar a tecnologia do zero, como curiosidade. “Aqui no Brasil, VR ainda era vale-refeição”, disse, referindo-se ao quanto o mercado local demorou para levar a sério o que ele como designer enxergava como uma linguagem completamente nova.
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Os sentidos constroem o real
Ian abre a palestra com a visão de que a realidade que experimentamos não é o mundo em si, mas a interpretação que nosso cérebro faz dos estímulos sensoriais que recebe. “Não acessamos o mundo diretamente, mas interpretamos estímulos sensoriais e transformamos sinais em percepção, memória e significado. Usamos os cinco sentidos para isso”
A pergunta que guia o trabalho de Ian é: se a percepção humana é uma soma de todos os cinco sentidos, como trabalhar isso num ambiente de realidade virtual onde, na maioria das vezes, só dois deles (visão e audição) são contemplados?
Memória além da tela
Para ilustrar como a XR pode criar experiências que vão além do que um vídeo convencional consegue, Ian contou o caso de um cliente produtor de cacau que queria mostrar ao público a realidade do trabalho nas fazendas. A equipe viajou até a Bahia, filmou todas as etapas da produção (colheita, plantio, beneficiamento) e montou uma experiência imersiva que foi apresentada num evento em São Paulo.
Ian comentou que, por conta da experiência que teve no lugar, ficou mais fácil criar um mundo virtual baseado nas percepções que ele teve enquanto visitava o plantio. No momento em que o vídeo mostrava alguém colocando uma semente de cacau na mão, alguém da equipe colocava uma semente real na mão da pessoa no mundo físico, simultaneamente, aumentando a conexão com o lugar. “A XR não vem para substituir, mas sim para agregar”, disse Ian.
Memória de presença e memória de observação
Um dos conceitos mais fortes da palestra foi a distinção entre dois tipos de memória que diferentes formatos de mídia criam, citando os vídeos que vemos no dia a dia em telas planas de celulares, televisores e computadores. “O vídeo normal cria uma memória de observação. A realidade virtual cria uma memória de presença.”
Para sustentar esse argumento, Ian citou estudos de neurociência que colocaram pessoas diante de um mesmo conteúdo – um grupo assistindo numa tela comum e outro em realidade virtual – e mediram a atividade cerebral nas regiões ligadas às emoções. Quem experimentou o conteúdo em VR apresentou mais atividade nessas regiões do que quem assistiu no formato tradicional.
Ele também mencionou aplicações médicas onde a realidade virtual está sendo usada no lugar de medicamentos para tratar dor e ansiedade em pacientes, e um projeto educacional em que crianças visitaram um museu em XR e saíram convictas de que tinham estado fisicamente lá. “A diferença não é apenas tecnológica. É cognitiva.”
O design que mora entre o físico e o digital
O que Ian propõe não é uma substituição do mundo físico pelo digital, nem o contrário. É uma combinação das duas coisas. “Criar hoje é transitar entre o físico, o digital, o sensorial e o cognitivo”, disse.
“A mente não termina na cabeça. Ela continua nas experiências que moldam nossa percepção.” É uma ideia que vai além da tecnologia imersiva. Ian leva isso quase como uma filosofia de design – a de que qualquer experiência bem construída tem o poder de literalmente mudar como alguém lembra de algo. E que, quando bem feita, a diferença entre estar presente e ter sido transportado para lá pode ser menor do que o cérebro imagina.
O TecMundo está no São Paulo Innovation Week! O SPIW 2026 começou nesta quarta-feira (13), na capital paulista, reunindo líderes de grandes companhias brasileiras e globais, empresas e startups. Centros de pesquisa, investidores e governos também estarão presentes, participando de debates em tecnologia, ciência, educação, saúde, finanças e muitas outras áreas. Para todos os detalhes acesse o site oficial do evento.
